quarta-feira, 29 de julho de 2009

Poesia- 1



Mundos



No momento da partida,
estamos sós.
Ninguém no cais, a acenar
pra nós.
Cegos,
ofuscados
pela luz do Nada.

E logo que aportamos
ao desconhecido,
temos na visão o novo
colorido
de uma brilhante e mística
alvorada.

Para trás deixámos o mundo
da ilusão,
que alterando a nossa percepção,
nos fazia ver aquilo
que não era.

E em tal instante,
temos a certeza.
Abandonámos o mundo
da tristeza
e estamos agora no mundo
da quimera.

Mimetismo

Em encontro casual com loquaz, bem nutrida e desconhecida senhora, que entretanto se declarava parente próxima de popular e conceituado político, afirmei, perante o seu espanto, não acreditar na amizade.

Confessou ela, na altura, dispor de rendimento mensal superior a 500 contos (moeda então vigente ?) e que a actividade comercial a que se dedicava, como suponho que continua a fazer, e exclusivamente dependente do sector livreiro, constituía apenas um hobby que auxiliava a passar os dias.

Vim agora a tomar conhecimento através da imprensa diária que o seu parente é possuidor de avultadas somas actualmente em depósitos suíços acerca dos quais está prestando esclarecimento em inquérito promovido pelo tribunal competente.

Ora, esse dinheiro foi supostamente adquirido dada a sua posição social e em virtude das amizades construídas graças a ela.

Daí talvez o espanto manifestado pela minha interlocutora perante a insólita afirmação.

Deixei já de contar as primaveras e comecei há muito a contabilizar os Invernos vividos, nunca tendo passado de ignorado cidadão, qualidade essa pela qual hoje muito me regozijo.

Amigos assim, pois, nunca tive nem espero vir a ter.

Amizades outras, também jamais contemplei a não ser as que mais tarde e por completo me desiludiram.

Por incapacidade pessoal ou cruel destino a descrença na amizade enraizou ferozmente em meu ser , de tal forma que não hesitei em negar a sua existência até nessa conversa casual com a desconhecida e obesa personagem.

Foi um facto dos muitos que pontilham a vida de quem continua a pensar na inexistência de tal sentimento.

Hoje, unicamente o interesse e a conveniência de cada um determinam as atitudes que a ela tenazmente se assemelham.



terça-feira, 28 de julho de 2009

As bolhas

Partilho intensamente a ideia de que os pensamentos são como minúsculas bolhas de metano que lentamente se vão formando em pantanoso leito até adquirirem volume capaz de as transportar à superfície, onde explodem.


Faz tempo que as minhas bolhas não avolumam suficientemente para se deslocarem das profundezas do subconsciente e, através das circunvoluções cerebrais, virem manifestar a sua existência.


Tenho pois de socorrer-me das convicções que jamais me abandonam, não como tivessem sido evolutivas bolhinhas, antes inamovíveis pedras em um pântano cada vez menos prolífero:


Sempre que, na história da humanidade, surgiram, como vindos de outras dimensões, seres com a capacidade de se distinguir como vértices no seu tempo, polarizando a atenção geral, os homens de então, acreditaram com razão estarem perante algo muito extra ordinário, milagroso.


Assim sucedeu com o aparecimento de Cristo, de Buda e de Maomé, como exemplos.


Esses seres de excepção com origem em dimensões que ainda hoje mal podemos conceber, certamente na sua mensagem para este decadente planeta, não tiveram como finalidade a semente de uma nova religião.


Vieram sim, penso eu, com a simples determinação de ensinar aos humanos como se devem relacionar e conduzir perante os seus semelhantes.


Ensinamentos que, até ao momento, não conseguimos apreender e portanto, muito menos, praticar.


A religião, essa, foi criada por homens que, como os seus actuais acólitos, se serviram dela para se servirem dos outros, os crédulos.







terça-feira, 21 de julho de 2009

Riso incontido

Se, em meados do século passado, em tempos pois não muito distantes, alguém pronunciasse a palavra "clicar" não faltaria quem opinasse tratar-se de termo pornográfico ou, pelo menos , de algo intimamente ligado ao jargão do sexo.

Com o avanço faiscante da técnica foram criados novos termos ou alterados os significados dos já existentes como é o caso do vocábulo britânico "zap" que hoje ninguém ignora tratar-se da rápida mudança de uns canais para os outros com o telecomando da televisão.

Como certamente muitos outros milhares de espectadores faço de quando em vez o meu "zapping", displicentemente com o pensamento no vazio e mal vendo as sucessivas imagens que vão surgindo com maior ou menor rapidez.

Todavia , à passagem pelo canal que apresenta acontecimentos no Parlamento é normal suspender o movimento e ficar observando e ouvindo os nossos representantes no fórum nacional.

Há muito tempo que me vinham intrigando os sorrisos ou mesmo o riso aberto quando do discurso do opositor político acompanhado por meneios mais ou menos bruscos.

Em principio, penso eu, se existe cousa menos apropriada para acontecer em tal assembleia é precisamente o riso das pessoas presentes às quais incumbe a defesa e apresentação de opiniões que devem presidir a um bem comum para que a sociedade evolua num aperfeiçoamento constante .

Intrigante situação essa que sempre me surpreendia e sobre a qual afincadamente me debrucei e raciocinei infrutìferamente durante muito tempo.

Na verdade, é no Parlamento que os problemas de Portugal devem ser seriamente discutidos, ponderados e resolvidos de forma que o bem de todos nós, que deve presidir no pensamento de cada parlamentar , seja condição para provocar um final harmónico capaz de unir e satisfazer a presença geral.

Porém tal não se verifica e os opositores são, sem apresentar alternativas, sempre de parecer diverso com a troca sistemática dos seus misteriosos sorrisos.

E assim se esgrimem coruscantes diatribes que vão preenchendo o tempo parlamentar.

Perdoe-me o leitor se lhe parece que não estou certo e a minha forma de ver colide com a sua própria.Considere contudo que expresso a minha opinião com a maior sinceridade e, na realidade, depois de pensar maduramente sobre o problema cheguei a inquietante conclusão: a de que eles quando riem, riem de nós que os elegemos.