segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Poesia- 9
Acróstico
Cruzámos os destinos nesta vida,
Ao sabor do carinho e da ilusão,
Sonhando sob as leis do coração,
Iniciámos uma paixão sentida.
Muitos anos vivemos à partida,
Indiferentes ao mundo que era então,
Recebendo na mente, na razão,
A levedura da missão cumprida.
Subiste, nova estrela, ao firmamento,
Ao libertar a alma num momento
No vastíssimo espaço sideral;
Tocaste o céu, os anjos, a ternura,
Ouviste o hino da mística ventura,
Sofri, fiquei sozinho, por meu mal.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Memória - Três
I -Conto
Numa recôndita aldeia do vasto Império vivia pobre e modestamente um chinês, de seu nome Fa Xi Xi.
Venerado pelos seus conterrâneos, possuia um pequeno terreno onde anualmente colhia a sua produção de arroz, alimento para si e seu neto, mocetão que muito o auxiliava nos afazeres pois que para assegurar boa colheita dedicavam-se com determinação e afinco aos cuidados requeridos pela sua modesta plantação.
-Que sorte!
Murmurava-se pela aldeia referindo-se ao probo ancião.
-Que sorte tem o Fa Xi Xi pois este ano de certo vai ter uma boa colheita de belo que está o seu arroz!
Contudo, um dia pela manhã na costumeira visita verificou estupefacto que a produção desse ano estava seriamente comprometida.
Todo o terreno revolto e espezinhado apresentava o pior dos aspectos.
-Que azar!
Dizia-se ao falar do sucedido.
-Que azar o do pobre Fa Xi Xi !
No dia seguinte , voltando à plantação na procura da causa da sua infelicidade, deu conta, atrás de um juncal, de soberbo cavalo branco como a neve, que teria sido certamente o autor da sua desgraça.
-Que sorte a do Fa Xi Xi, aquele lindo cavalo compensa largamente o arroz perdido !
E o rapagão do seu neto passou a cavalgar correndo alegremente as aldeias visinhas.Mas ao saltar um valado caiu do seu alazão fracturando uma das pernas.
-Que azar o do velho, privado agora do seu melhor auxílio !
Sucedeu então ter o Imperador, por premente necessidade de aumentar os efectivos militares, enviado os seus esbirros em recrutamento forçado.
-Que sorte, o único jovem da aldeia é o neto do Fa Xi XI !
Leitor meu, medita um pouco sobre este conto.
II- Anexim
Existe um provérbio oriental que reza:
Mais vale estar sentado que de pé.
Mais vale estar deitado que sentado.
Mais vale estar morto que deitado.
Talvez mereça a pena meditar um pouco mais.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Memória - Dois
I- O frasco
Na zona mais degradada da cidade do Recife, muitas vezes denominada de Pernambuco, província da qual é capital, vivia, numa cubata, uma velha negra.
Em dias de intempérie não só a chuva penetrava como o vento, rodopiando, varria o térreo chão.
Com ela, os seus três netos, alegria da sua existência, que durante o dia palmilhavam descalços pelas ruas regressando para o feijão vespertino.
Por rara fortuna era possível acautelar num frasco um pouco de manteiga que, se ao alcance do olhar cobiçoso da gurisada, sempre estava onde as rapaces mãozinhas nunca chegariam.
Então, a velha, à refeição, sob olhares anciosos, passava a faca pelo exterior do frasco distribuindo a virtual iguaria pelas côdeas que gulosamente eram consumidas.
II- Surf
A primeira vez que ouvi o relato que se segue só acreditei por ter sido contado por quem foi:
Se, por vezes, alguém tinha de percorrer a mata sertaneja e era fisiologicamente
impelido a aliviar a respectiva bexiga devia acautelar-se com especiais cuidados.
Se o não fizesse corria o iminente risco de terrível desconforto dado que do solo infecto, sagaz micro organismo conseguia, sem aparente dificuldade, subir a contra jacto e alojar-se no corpo do incauto provocando a mais dolorosa das infecções.
III- A Bíblia
Do outro lado da rua morava a comadre, como ele viúva, mas ainda fresca e apresentável.
Ele, também pernambucano, tomou o hábito de, pela manhã, desjejuar em casa dela o que já fazia com grande à-vontade.
A partir de certo dia, muniu-se de velha e desgastada Bíblia à qual incapaz de decifrar, por iletrado, as mágicas palavras, apontava o indicador como se estivesse a ler, dizendo-lhe:
- Compadre com comadre, de manhã em jejum; não faz mal nenhum !
- Não pode ser, retorquia a visada, essas não são palavras sagradas !
- São, comadre; estão aqui escritas com o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo !
Não sei qual o desfecho desta verídica história mas, quero acreditar que o vivaço compadre tenha conseguido os seus generosos intentos.
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