I - A quadra
Corriam os anos do último quartel do século XIX quando navio a vapor, quiçá ainda mastreado e de velame, chegou a Terra de Santa Cruz.
Com ele, português emigrando em busca de fortuna, pleno de esperança e decisão.
No cais, chapéu de palha esfiapado, rosto esculpido pela tempestade da vida, um caboclo dedilhando o violão, cantou:
"Marinheiro, pé de chumbo,
Calcanhar de frigideira,
Quem te deu a confiança
De casar com brasileira ?"
NOTA : "marinheiro", sinónimo de "português".
II - Nocturno
Anos passados, já estabelecido em Pernambuco, tinha por vida vender atoalhados, rendas e tecidos por terras do sertão. Entre eles recordo o famoso brim "Cadeira" de cadeira estampada em suas dobras e do agrado geral de seus clientes.
Evitando o calor, bastas vezes viajava tendo por companhia o luar das noites tropicais.
Numa delas distinguiu o estranho desfile de dois homens cruzando o seu caminho e entre eles, a ombro, uma padiola onde as vestes de um morto drapejavam ao sabor da suave brisa.
Temente, mas estugando o passo da sua montada fê-la aproximar da macabra visão.
E viu, uma vaca de membros alvacentos, lombo negro malhado, que calmamente se sumia entre o verde escuro do arvoredo.
III - Garapa
Naquele tempo, havia em Pernambuco um pedinte, semi -demente, que calcorreava as ruas em busca de esmola salvadora.Tinha o apodo de "garapa", o qual não podia ouvir sem ficar altamente perturbado, furibundo.
Garapa é inocente bebida composta de água e mel.
Então, os moleques saltando em seu redor, ora numa ora noutra das suas sub-nutridas perninhas, rostos esfuziantes de alegria e malícia, gritavam:
- Mé com água! Mé com água!
E ele, soturno, ziguezagueando, vociferava, provocando-os a pronunciar a odiada palavra, o que justificaria a mais dura das atitudes:
- Mistura, safado! Mistura, safado! Mistura!
- Aqui ficam três momentos há muito tempo vividos.
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Gostei .. conte mais .. nn
ResponderEliminar(apodo)